Certa vez, durante uma supervisão clínica, uma terapeuta trouxe uma dúvida que provavelmente muitos professores, profissionais do AEE e psicopedagogos já ouviram: “Em um curso sobre alfabetização, disseram que eu preciso esperar a criança entrar na fase silábica antes de começar a ensinar leitura. Mas ela já reconhece letras, aprende bem quando recebe instrução e demonstra interesse pelos materiais escritos. A fase silábica é mesmo um pré – requisito para alfabetização?”

A resposta curta é: não.

Entretanto, a resposta mais importante exige compreender de onde surgiu essa ideia, por que ela continua presente em muitos contextos educacionais e o que a Ciência Cognitiva da Leitura mostra sobre como as crianças aprendem a ler.

De onde veio essa ideia?

A teoria da psicogênese da língua escrita, proposta por Emília Ferreiro e Ana Teberosky em Psicogênese da Língua Escrita (1979), trouxe uma contribuição importante para a compreensão do desenvolvimento infantil.

As autoras mostraram que as crianças não chegam à escola como uma folha em branco. Ao contrário, elas formulam hipóteses sobre a escrita e tentam compreender como esse sistema funciona.

A partir dessas observações, descreveram diferentes formas pelas quais algumas crianças organizam suas ideias sobre a escrita: pré-silábica, silábica, silábico-alfabética e alfabética.

Essa descrição foi bastante relevante para a educação. Porém, um problema surgiu quando uma teoria originalmente descritiva passou a ser utilizada como prescrição pedagógica.

Em muitos contextos, a ideia de que algumas crianças podem apresentar determinadas hipóteses transformou-se na crença de que todas precisam necessariamente percorrer essas etapas antes de receber ensino formal da leitura.

No entanto, uma descrição do desenvolvimento não corresponde, necessariamente, a uma sequência obrigatória de ensino.

O que a Ciência Cognitiva da Leitura mostra?

Nas últimas décadas, um conjunto crescente de pesquisas deu origem ao campo conhecido como Ciência Cognitiva da Leitura, que investiga como o cérebro aprende a ler e quais tipos de instrução produzem melhores resultados.

A linguagem oral faz parte da história evolutiva da espécie humana. Já a leitura é uma invenção cultural relativamente recente. Por isso, aprender a ler depende do ensino. Além disso, exige a reorganização de circuitos cerebrais originalmente destinados a outras funções, como descreve Stanislas Dehaene em O Cérebro Leitor (2011).

Em 2000, o National Reading Panel revisou décadas de pesquisas e identificou cinco componentes fundamentais para a alfabetização:

É interessante observar que a fase silábica não aparece entre esses componentes como um requisito para iniciar o ensino.

Ao contrário, a evidência científica mostra que crianças aprendem melhor quando recebem instrução explícita, sistemática e organizada.

Além disso, revisões mais recentes, como a de Castles, Rastle e Nation (2018), reforçam que o ensino baseado em evidências envolve o desenvolvimento integrado da decodificação e da compreensão, sustentado por décadas de pesquisas em diferentes idiomas e populações.

A Visão Simples da Leitura

Outro modelo amplamente validado é a Visão Simples da Leitura, proposta por Gough e Tunmer (1986).

Segundo esse modelo:

Leitura = Decodificação × Compreensão Linguística

modelo da visão simples da leitura

Em outras palavras, compreender um texto depende da interação entre dois componentes:

  1. a capacidade de transformar símbolos escritos em linguagem oral;
  2. a capacidade de compreender essa linguagem.

Novamente, não existe nesse modelo uma etapa obrigatória denominada “fase silábica” como condição para iniciar a alfabetização.

Isso não significa que as hipóteses descritas por Ferreiro não existam ou sejam irrelevantes. Significa apenas que elas não constituem um critério de prontidão para a aprendizagem da leitura.

O que acontece quando se espera demais?

Imagine uma criança de seis anos que:

Apesar disso, sua escrita ainda é considerada pré-silábica.

Se a decisão for esperar até que a fase silábica apareça espontaneamente, meses podem se passar sem que essa criança receba instrução sistemática da leitura.

Nesses casos, o problema geralmente não é a capacidade de aprender. O problema pode estar na ausência de oportunidades adequadas de ensino.

Essa situação pode ser observada em crianças com dificuldades de aprendizagem, em crianças com menor exposição ao letramento e também em muitos alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Consequentemente, atrasos desnecessários podem aumentar as dificuldades futuras e ampliar desigualdades educacionais.

Por que a instrução explícita funciona?

Diversas revisões sistemáticas e estudos longitudinais mostram que a instrução fônica sistemática produz melhores resultados do que abordagens que dependem predominantemente da descoberta espontânea.

Isso significa ensinar diretamente:

Além disso, essa abordagem oferece:

Não se trata de acelerar a criança ou desrespeitar seu desenvolvimento.

Trata-se de oferecer oportunidades de aprendizagem estruturadas.

Embora as crianças formulem hipóteses espontaneamente sobre a escrita, a evidência sugere que o ensino explícito tende a tornar esse processo mais eficiente.

Linnea Ehri demonstrou que aprender a ler não significa memorizar palavras visualmente. O processo depende da formação de conexões entre letras e sons, fenômeno conhecido como mapeamento ortográfico (orthographic mapping).

Essas conexões permitem que as palavras sejam reconhecidas de forma cada vez mais rápida e automática.

Da mesma forma, David Share propôs a hipótese do autoensino, segundo a qual cada tentativa bem-sucedida de decodificação contribui para a consolidação do reconhecimento das palavras.

Esses modelos ajudam a explicar por que a instrução explícita das relações entre grafemas e fonemas favorece a construção de uma leitura fluente.

E as crianças com TEA?

As crianças com TEA apresentam grande variabilidade no desenvolvimento da leitura.

Algumas desenvolvem decodificação precoce, fenômeno conhecido como hiperlexia. Outras necessitam de ensino explícito e sistemático para desenvolver essa habilidade.

Essa diversidade mostra que não existe um único caminho obrigatório para aprender a ler.

As etapas descritas por Ferreiro podem ser observadas em algumas crianças, mas não representam uma sequência universal que todas devam percorrer.

Pesquisas sugerem que crianças com TEA podem se beneficiar significativamente da instrução fônica sistemática quando ela é organizada de maneira clara, progressiva e baseada em critérios objetivos.

O que realmente indica prontidão para alfabetizar?

Em vez de perguntar:

“Ela já está na fase silábica?”

Talvez seja mais útil perguntar:

Essas características fornecem informações muito mais úteis para planejar o ensino do que a simples classificação em uma fase da escrita.

Mitos e verdades

❌ Toda criança precisa passar pela fase silábica antes de aprender a ler.

✔ As fases descritas por Emília Ferreiro representam hipóteses de escrita observadas em algumas crianças. Elas não foram propostas como critérios de prontidão para alfabetização.

❌ Ensinar leitura antes da fase silábica pode prejudicar a criança.

✔ Não há evidências de que a instrução fônica sistemática, quando adequada ao repertório da criança, cause prejuízo.

❌ A criança só está pronta quando começa a escrever de forma silábica.

✔ Prontidão para a alfabetização envolve habilidades observáveis e ensináveis, como linguagem oral, atenção, consciência fonológica e capacidade de responder à instrução.

Na prática: como começar sem esperar

Antes de decidir por onde começar, identifique o que a criança já sabe.

Desenvolva a consciência fonológica

Avalie o repertório inicial

Trabalhe rimas, sílabas, aliterações e, progressivamente, habilidades fonêmicas.

Ensine explicitamente as relações entre letras e sons

Não espere que a criança descubra sozinha aquilo que pode ser ensinado diretamente.

Monitore o progresso

As decisões pedagógicas devem ser guiadas pelo desempenho da criança e não pela expectativa de que determinada hipótese de escrita apareça espontaneamente.

Quando buscar uma avaliação especializada?

Se a criança já recebeu instrução organizada e continua apresentando dificuldade importante para estabelecer correspondências entre letras e sons, uma avaliação psicopedagógica ou fonoaudiológica pode ajudar a identificar quais habilidades estão interferindo na aprendizagem.

Mais importante do que determinar em qual fase a criança está, é compreender quais competências já foram desenvolvidas e quais ainda precisam ser ensinadas.

Para encerrar

A teoria das fases da escrita trouxe contribuições importantes para a compreensão do pensamento infantil.

Entretanto, do ponto de vista da Ciência Cognitiva da Leitura, ela não deve ser utilizada como um critério para decidir quando a alfabetização pode começar.

Respeitar o tempo da criança não significa esperar passivamente.

Significa oferecer oportunidades de aprendizagem compatíveis com seu repertório, monitorar o progresso e ajustar a instrução sempre que necessário.

A pergunta mais importante talvez não seja:

“Ela já entrou na fase silábica?”

Mas sim:

“Quais habilidades ela já possui, quais precisa aprender e como posso ensiná-las da maneira mais eficiente possível?”

Porque crianças aprendem melhor quando recebem ensino de qualidade — e não quando ficam esperando pelo momento perfeito.


Você já ouviu que era preciso esperar a fase silábica para começar a ensinar leitura?

Conte nos comentários como essa ideia apareceu na sua prática e o que mudou quando você passou a olhar para a alfabetização sob a perspectiva das evidências científicas.

ALMA Psicopedagogia — Alfabetização, Letramento e Matemática Acessível

Autor

  • almapsicopedagogia

    Débora Piazarollo Moreno

    Pedagoga e Psicopedagoga Clínica

    Especialista em Transtornos do Espectro do Autismo – UFMG

    Qualificação em Análise do Comportamento Aplicada ao TEA Autista e Desenvolvimento Atípico - Creative Ideias

    Pós-graduanda em Análise Aplicada do Comportamento – CBI of Miami

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